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domingo, 25 de novembro de 2018

António Lobo Antunes - Parafusos e porcas

Parafusos e porcas

Conhecia-os mais ou menos a todos porque pertenciam ao mesmo bairro que eu e a maior parte deles, nos intervalos das excursões, eram pacíficos e cordatos. Trabalhavam por ali, em oficinas e coisas assim, e depois do trabalho, antes do jantar, passavam pelo tasco da sede do Grupo

Quando eu era miúdo, na periferia de Lisboa onde fui feito e onde cresci, um subúrbio pobre, havia um grupo de excursionistas chamado GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS, do qual faziam parte só homens, que passavam um domingo por mês num autocarro cheio de litros de tinto, partiam de manhã e regressavam ao fim da tarde, completamente grossos, a lutarem com a maré alta do passeio, a gritarem, a abraçarem-se, a rirem, a empurrarem-se, na panóplia completa dos bêbados, no meio de quedas, discussões, insultos e cantorias, dispersando-se aos tropeções, alguns de gatas, uns calmos, outros impetuosos, outros coléricos, alternando abraços com empurrões e juras de amizade eterna com tentativas de pancadaria, entre vómitos e tropeços. Conhecia-os mais ou menos a todos porque pertenciam ao mesmo bairro que eu e a maior parte deles, nos intervalos das excursões, eram pacíficos e cordatos. Trabalhavam por ali, em oficinas e coisas assim, e depois do trabalho, antes do jantar, passavam pelo tasco da sede do Grupo para um copo fraterno, muitas vezes silencioso e soturno. Nas excursões não eram permitidas mulheres. Dos lados do autocarro havia dois lençóis estendidos, amarrados com cordas, anunciando
GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS
por baixo do
GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS
a frase, em letras gordas
AS PORCAS FICARAM EM CASA
e, de facto, não se via uma só porca nas redondezas, parafusos apenas, às palmadas nas costas uns dos outros, felizes pelos delirium tremens que se aproximavam, transportando a alegria em garrafões, ainda pausados e calmos. Meia dúzia de porcas, inquietas, vigiavam a partida de longe, na certeza de uma noite tempestuosa, escondendo santinhos e bonecos de barro nos quintaizecos das traseiras porque, dali a horas, viria um temporal de cacos, cuja violência era celebrada durante dias, com frases de felicidade no género
- Grande domingo: apanhámos cá uma bebedeira...
isto dito, claro, com orgulho e natural satisfação, mudando de conversa a fim de cumprimentarem, com solenidade, as senhoras que passavam, tirando o boné numa educação lenta, já de alma apontada ao próximo passeio. O autocarro, quase podre, andava uns quilómetros, poucos, na direção de uma berma propícia, e gastavam o dia aos encontrões, a mamarem dos gargalos, enquanto as porcas escondiam bibelôs, retratos e mobília mais frágil. Partiam de gravata e casaco e regressavam de fralda da camisa de fora, com a gravata amarrotada no bolso, ao mesmo tempo joviais e comovidos, até as porcas os pastorearem para casa a tropeçarem nos próprios sapatos. À medida que os tempos iam mudando e os parafusos envelhecendo
(começaram a aparecer bengalas, muletas, bocas tortas, um bracinho defunto, uma perna que se arrastava, as primeiras mortes
- Os fígados gastam-se, amigos)
o GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS deu em diminuir e as porcas, mais resistentes, a ganharem força. A frase, em letras gordas
AS PORCAS FICARAM EM CASA
desapareceu dos lençóis, e as ditas porcas começaram a acompanhá-los nas excursões de domingo onde havia agora água mineral e almofadas para os rabos cansados dos parafusos que já não discutiam, não se abraçavam, não riam, acocorados em pedras à beira da estrada, enquanto as porcas conversavam umas com as outras e lhes davam ordens, transformando vinho em água-pé primeiro e confiscando-o finalmente, atentas às queixas
- Mijei-me todo
ou
- Não consigo segurar as fezes
equilibrando-os com dificuldade e uma página de jornal na mão, a puxá-los
- Anda lá, anda lá
para trás de uns arbustos, nos quais se distinguia uma cabeça vencida. O autocarro acabou, sem pompa, num baldio do bairro, os domingos terminaram, e os parafusos principiaram a permanecer no bairro, em banquitos ao acaso, com bóinas coçadas a cobrirem as calvícies, e as bocas desmobiladas a chuparem cigarrinhos meio apagados. Elas levavam-nos para casa equilibrando-lhes os sovacos
- Mexe-te, emplastro
e agarrando-os pelas calças que amoleciam. Quando me tornei adolescente já poucos sobravam, sem diálogos, sem interesses, sem júbilo algum, a engolirem os comprimidos que elas lhes estendiam numa obediência mansa. No caso de um deles perguntar
- O Jorge?
uma voz respondia
- Morreu o ano passado
e o queixo do que perguntara descaía um bocado, numa aceitação melancólica. As porcas, essas, iam aumentando de autoridade
- Estás cada vez mais um farrapo
e o GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS dissolveu-se, substituído, progressivamente, por idosas enérgicas, a quem eles se submetiam num cansaço desarticulado. Deviam trocar-se os letreiros por cartazes que anunciassem
GRUPO EXCURSIONISTA AS PORCAS
com outro por baixo
OS PARAFUSOS ESTÃO QUASE TODOS NO CEMITÉRIO
enquanto elas faziam crochet no murozito da estrada, a contarem histórias dos netos, que os parafusos sobreviventes nem escutavam. Talvez, quando muito
- O Jorge morreu mesmo?
seguido de um chichi desolado pelas tíbias abaixo, um lamento de mulher
- O que eu aturo
o que os dois ou três parafusos que resistiam já nem conseguiam ouvir. O tasco é agora uma butique que vende roupa feminina a pessoas para quem os parafusos não significam nada.
Retirado da Visão

terça-feira, 3 de abril de 2018

António Lobo Antunes - Os pobrezinhos

"Os Pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"
 
UMA CRÓNICA DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

DEDICADA A ISABEL JONET

(Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome)
 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Pilinhas - António Lobo Antunes


O Pilinhas


Quando acabei a instrução primária num colégiozito em Benfica cujo corpo docente era constituído pelo dono, a mulher, a sogra e um cão chamado Pirata, conjunto que, só por si, atesta a qualidade do ensino, melhorada pelas generosas cargas de porrada que o dono distribuía aos alunos nos intervalos de arrancar pêlos do nariz, dono que voltei a encontrar muitos anos depois, na rua, onde nos reconhecemos logo, ele avançou para mim de mão estendida e sorriso e tive a oportunidade de o mandar para o caralho, depois da instrução primária, dizia eu, os meus pais matricularam-me no Camões onde encontrei dois mestres inesquecíveis. O professor de Matemática, de alcunha Bolinhas, que lamentava a nossa ignorância sempre com a mesma frase melancólica

– Pois é, vocês em lugar de estudarem passam a vida no cinema. Com a vossa idade eu ia ao cinema uma vez por semana e era lá de mês a mês

que me acompanhará até à morte e, para além do Bolinhas, uma segunda criatura que não era tão estúpida, era apenas um criminoso, conhecido pelo epíteto de Pilinhas. Esse não se ocupava de Matemática, ocupava-se da Religião e Moral, e sofri-lhe as aulas durante os dois primeiros anos. Chamavam-lhe Pilinhas porque repetia, vezes sem conta, a mesma frase:

– Só se pode mexer na pilinha para cinco coisas: fazer chichi, lavar, ajeitar, coçar mas não muito e pôr remédio.

Ao contrário dos outros professores de Moral não era padre: era médico, era careca

(por acaso o Bolinhas também)

fazia-nos festas e, por amor a Deus, nunca casou. Dava as aulas inteiras sentado atrás da secretária

(as secretárias do Camões eram fechadas, quer dizer havia um espaço para as pernas e tudo o resto era madeira)

e ia-nos introduzindo, em voz baixa e suave, na intimidade com o Divino, Mandamentos, Inimigos Do Homem, que são três, Mundo, Demónio e Carne e, a propósito da Carne, lá vinham as cinco coisas acerca da pilinha, cuja relação com a Carne

(ele não explicava que espécie de carne, eu achava que rosbife)

eu não entendia muito bem. Pronto, resigno-me: não entendia mesmo nada. Também não entendia porque motivo o Mundo era meu inimigo. O Demónio está bem, tão cheio de maldade, agora o Mundo, com Paris e elefantes, não conseguia concebê-lo a querer fazer-me mal. Para mais o globo terrestre, que um dos meus tios tinha, jamais me ferrou uma dentada: era de lata, andava à roda, um bocado empenado, cheio de continentes e oceanos e a Austrália era cor de rosa. Não acreditava que uma ilha cor de rosa fosse minha inimiga e como o tio, que a tinha no quarto, permanecia vivo e de saúde, o Mundo não podia ser assim tão cruel. Para mais tudo o que o Pilinhas ensinava ou era incompreensível ou, na melhor das hipóteses, duvidoso, e eu saía das aulas numa espécie de atordoamento, convencido que talvez o Mundo fosse meu inimigo derivado à ignorância incurável que desde o berço me acompanha e que, para mal dos meus pecados

(estamos na aula de Religião e Moral)

continua, infelizmente, a acompanhar-me. Bom. Isto ia andando assim até que o Pilinhas, enquanto nos instruía acerca dos difíceis caminhos da Fé, começou a chamar um de nós para sentar-se ao seu lado, durante as aulas, atrás da dita secretária fechada, talvez, pensava eu, porque a proximidade mestre-discípulo por um lado premeia os bons alunos, por outro permite ao professor tomar melhor o pulso à temperatura pedagógica da turma através das reações, sentidas de perto pelo mestre, das nossas inocentes almas infantis. Só achava esquisitas as caras dos meus colegas no fim das aulas mas atribuía isso ao maravilhamento da honra de estar cinquenta minutos no estrado, diante da turma, numa posição de privilégio. Até que uma manhã ouvi o Pilinhas chamar-me

– Antunes

e dilatei-me de orgulho na carteira porque o privilégio ia, finalmente, pertencer-me. Ao

– Antunes

e eu era o único Antunes ali, seguiu-se um

– Chega aqui, Antunes

mavioso e risonho e viajei até ele num orgulho infinito, sentando-me na cadeira ao lado da sua, em cujo tampo o Pilinhas batia uma palma convidativa. Estar sentado de frente para os meus parceiros, no alto do estrado, encheu-me de orgulho e comecei a achar que, de facto, existia um não sei quê de hostil para comigo da parte de Paris, dos elefantes, do Mundo em geral, uma certa raiva na Austrália, uma antipatia óbvia nas ilhas Fidji, qualquer coisa de subtilmente antropofágico

(discreto mas óbvio)

no Uruguai, na Hungria, no Pólo Sul. De quando em quando os dedos do Pilinhas roçavam-me o cotovelo e acabaram por ancorar nos meus joelhos, acariciando-me de leve ao início, cada vez com mais força depois, subindo- -me as coxas em beliscões simpáticos, avaliando-me a textura da pele, encontrando-me o elástico das cuecas, tudo isto enquanto dissertava acerca do Espírito Santo e me alcançava subtilmente o a seguir ao elástico, procurando, em movimentos convulsos, aquilo em que só se podia mexer para cinco coisas e tentando juntar-lhe uma sexta. A certa altura convidou a turma a ler os Mandamentos em voz alta e, aí pelo terceiro ou quarto, inclinou-se para mim numa expressão que nunca esquecerei, parecida com a do camaleão da minha tia Graça, que morava numa gaiola na cozinha, antes da boca expulsar uma compridíssima língua instantânea que filava uma mosca desprevenida, enquanto o Pilinhas, de lábios quase colados à minha orelha, perguntava num cicio que me horrorizou, enquanto me apertava com langor as cuecas que a minha mãe adaptava do meu pai para mim:

– Já tens leitinho aí?

pergunta que me deixou atónito: quem tinha leite era a minha mãe, que amamentava os meus irmãos que sucessivamente iam nascendo, de mim a única coisa que saía era chichi e, portanto, cheguei a casa confusíssimo. O meu pai estava, como de costume, no escritório, de olho no microscópio, e levei que tempos a ganhar coragem para lhe falar. Via-lhe apenas as costas e não era capaz até que, sem conseguir aguentar-me mais, me saiu sei lá de onde a pergunta aflita

– Ó pai eu tenho leite?

O resto foi simples e rápido, não demora muito a contar. O meu pai ficou imóvel até olhar para mim numa expressão de estranheza:

– O quê?

Repeti embaraçadíssimo

– Já tenho leite?

o meu pai, franzido

– Que história é essa?

eu

– O professor de Moral perguntou-me se eu tinha leite neste sítio

a apontar-lho enquanto o meu pai

– Repete lá essa história

eu

– O professor de Moral perguntou-me se eu tinha leite neste sítio e convidou-me para em lugar de almoçar no Camões almoçar em casa dele

e depois vi o meu pai de pé, e depois vi o meu pai a vestir o casaco numa velocidade impensável, e depois vi o meu pai sair a correr, e depois vi o meu pai, da janela, entrar no carro, e depois vi-o chegar uma ou duas horas depois, e depois ficámos sem lições de Moral durante um mês. Um dos contínuos informou-nos que o professor estava doente. O meu pai nunca foi para graças. Lembro-me que nesse dia jantou em silêncio. Quer dizer não bem em silêncio porque entre o prato e a sobremesa
(o meu lugar ficava à sua direita)
o ouvi murmurar

– Filho da puta

e não tornou a abrir a boca. Teria trinta e poucos anos nessa altura, não dizia palavrões e foi o único que alguma vez lhe escutei. E é tudo quanto conheço acerca desse assunto.

António Lobo Antunes

Retirado da Visão

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

António Lobo Antunes - Mãe


MÃE
Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela

Quando eu era pequeno, à noite, e já estava sentado na cama, a mãe dizia
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo 
eu ia, ela apagava a luz, e logo a seguir manhã. Hoje sonhei que estava sentado no parapeito do Viaduto Duarte Pacheco, a minha mãe chegava, dizia
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo 
eu ia e logo a seguir nada. Um dia destes vai ser assim, desejo que um dia destes seja assim.

O meu irmão Pedro morreu muito depressa no dia 21 de Dezembro, como era costume nele sem prevenir ninguém, mas tenho a certeza que, em qualquer ponto seu

com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Pedro
pela cama abaixo 

só que, se calhar, ninguém tomou atenção a estas palavras. No dia seguinte fomos, os irmãos, dizer à mãe. Estava sentada na cadeira do costume e portou--se com a imensa dignidade com que sempre viveu. As suas palavras foram

- Tenham misericórdia de mim.

Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela.

Depois de
- Tenham misericórdia de mim
que foi a única vez que a vi usar essa palavra, passado um bocado acrescentou
- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu

e morreu de lhe ter morrido o filho, com uma discrição e uma elegância exemplares. Não tinha nenhuma doença especial: apenas a obrigação de cumprir um dever e foi juntar-se ao Pedro. Não comia quase, sentada na cadeira em que recebeu a notícia. Às vezes dizia-lhe versos porque ela gostava muito de poesia. Na igreja disse-lhe um dos seus sonetos preferidos, de António Sardinha, que aprendi com o pai. Costumava contar que o pai, enquanto se arranjava de manhã, na casa de banho, recitava poemas e ela ficava a um canto, a ouvi-lo.

- O que é que a seduziu no pai, mãe?
- A inteligência
ela que começou a namorá-lo aos catorze anos. Isso e a voz do pai, tão sensual:
- Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Talvez o António, um bocadinho.

A sensualidade e a inteligência, ela que era uma mulher muito inteligente. Falava, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça que tinha conhecido menina, lá na Beira Alta, com o entusiasmo com que uma adolescente fala de um actor de cinema. Durante os meses ?em que esteve a preparar-se para se reunir ao filho às vezes pegava--lhe na mão e os dedos tão suaves e doces. Não éramos ricos, teve muitos filhos, tinha de tomar conta daquilo tudo, costurava, trabalha bastante em casa e quando se arranjava, assim para jantares mais de cerimónia, ficava uma brasa e pêras. Também não era especialmente terna mas contava-me, por exemplo, que, era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. Há alturas em que me sinto culpado pelos problemas que lhe atirei para cima: doenças (uma meningite aos oito meses durante a qual estive em coma, tuberculose aos três anos), o meu mau feitio

            (- Assim tão mau, mãe?)
            o meu completo desinteresse pelos estudos
            (Só se preocupa em escrever e ler)
            o seu receio de me ver acabar a vender pensos rápidos e Bordas d'Água nas esplanadas porque a literatura não dá de comer a ninguém, esquecida que a culpa era dela dado que nos ensinou a ler antes de entrarmos para a escola e, em mim, a doença pegou:

- Só liga a livros e a raparigas.
Eu perguntava-lhe
- Existe alguma coisa para além disso, mãe?
e o facto de não responder significava, talvez, que até certo ponto estava de acordo.
Às vezes, ao zangar-se
- Não sorrias porque estou a ralhar-te
e, quando eu sorria, era-lhe difícil ralhar-me
- Sobretudo não faças essa carinha

e eu lá mudava a carinha para o resto da descompostura. Julgo que só compreendi bem o que sentia por mim quando estava com o cancro e ela veio visitar-me. Não era mulher de lágrimas mas a cara encontrava-se cheia delas, escondidas. Agora tenho o seu retrato ali e sou eu que as escondo. Pior do que você, mãe, visto que sou mais chorão. A Zézinha nasceu quando eu na guerra e escreveu-me a contar: "não sei se estás vivo ou morto porque há um mês e meio que não sei nada de ti". Estava vivo. Não assim muito vivo, mas vivo, ao passo que quanto a si, mãe, nunca esteve tão viva como agora.

Com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo.

Tanta coisa que eu podia contar a seu respeito, e não conto, e jamais contei. Não sou capaz, tenho pudor. Enquanto a metiam debaixo da terra e não aguentei, fui-me embora. Fazia um dia de sol muito bonito. E tive a certeza de ver o Pedro ao longe. Não precisámos de falar. Quase nunca precisávamos de falar para nos entendermos. Mas a palavra mãe ia de um para o outro. E somos nós que vamos pela cama abaixo. A mãe será a última pessoa a ficar, olhando para a gente. Nascemos de si, não tem o direito de se ir embora. Não concorda? Olhe que eu ponho-me a sorrir aquele sorrisinho parvo até escutar que sim.

Retirado da Visão